INVESTIGAÇÃO · 2026-04-22 · 14 min
Incêndios em baterias de lítio: o que mudou
Mecanismos de runaway térmico, agentes extintores aplicáveis e protocolos de resposta para equipas operacionais.
A massificação de veículos elétricos, sistemas estacionários de armazenamento de energia (BESS) e micro-mobilidade trouxe um novo perfil de incêndio para o terreno. As células de iões de lítio (Li-ion) não se comportam como qualquer combustível convencional — armazenam energia química densamente concentrada, libertando-a de forma explosiva quando ultrapassam limites térmicos internos. Este artigo consolida o que operacionais, projetistas e gestores de risco precisam saber em 2026.
1. O que é o runaway térmico
Runaway térmico é o processo em cadeia pelo qual uma célula Li-ion, uma vez ultrapassada uma temperatura crítica (tipicamente 150 °C a 250 °C consoante a química), começa a libertar calor mais depressa do que consegue dissipar. Este calor decompõe o eletrólito, gera gases inflamáveis (hidrogénio, metano, monóxido de carbono, fluoreto de hidrogénio) e propaga-se às células adjacentes.
Do ponto de vista operacional, o runaway apresenta-se em três fases: (1) off-gassing — a célula liberta vapores antes da ignição visível; (2) ignição — chama característica com projeção de material; (3) propagação célula-a-célula — a energia libertada aquece vizinhas até novo runaway. Uma bateria pack pode arder durante horas, com reignições em intervalos imprevisíveis.
2. Porque a extinção convencional falha
O combate com água a incêndios de Li-ion falha em dois eixos. Primeiro, o volume necessário para arrefecer todo o pack até abaixo do limiar de runaway é enorme — literatura recente (NFPA 855 e a especificação técnica CEN TS 17765) documenta consumos acima de 10 000 litros por veículo elétrico e volumes ainda maiores para BESS de contentor. Segundo, a água não atinge o interior do pack quando este está selado; arrefece apenas o exterior enquanto o interior continua a propagar.
Pó químico ABC, CO₂ e espumas AFFF são ineficazes contra o incêndio de bateria propriamente dito. Podem controlar chamas secundárias em materiais adjacentes, mas não interrompem o runaway. Continuar a atacar a bateria com pó ou CO₂ dá uma falsa sensação de controlo — o pack reignite minutos ou horas depois.
3. Agentes e táticas atualmente recomendadas
Água em grande volume, com arrefecimento prolongado
Continua a ser a tática de base para incêndios de veículos elétricos. Prevê-se manter arrefecimento contínuo até o pack estar termicamente estabilizado (temperatura de superfície abaixo de 80 °C durante pelo menos 60 minutos consecutivos, medida por imagem térmica). Deve-se planear para consumos de 6 000 a 15 000 litros por veículo.
Aditivos: F-500 EA e mantas de contenção térmica
O F-500 Encapsulator Agent é um aditivo que reduz a tensão superficial da água, melhora a penetração no pack e encapsula compostos inflamáveis. Estudos operacionais mostram redução significativa do consumo de água e do tempo de arrefecimento. Mantas de contenção (fire blankets certificadas para Li-ion) permitem isolar o veículo e reduzir a propagação a estruturas adjacentes durante a fase de queima controlada.
Submersão
Em algumas jurisdições, submergir o veículo em contentores de água tornou-se prática documentada — sobretudo para veículos que reignitam repetidamente. Requer logística pesada (grua, contentor estanque, tratamento de água contaminada) e por isso raramente é adequado como resposta de primeira linha, mas é opção válida para pós-extinção.
4. Riscos específicos para equipas de primeira intervenção
Três riscos críticos exigem procedimentos específicos:
Explosão por acumulação de gases
Espaços confinados (parques subterrâneos, garagens, salas BESS) podem acumular hidrogénio a concentrações explosivas antes de qualquer chama visível. Ventilação forçada e monitorização com detetores de gases combustíveis são obrigatórias antes de qualquer aproximação.
Choque elétrico
Um pack danificado pode manter cabos de alta tensão energizados mesmo após o veículo estar aparentemente inerte. Isolar o pack (procedimento definido pelo fabricante — cada marca tem cortes específicos) antes de manipular estruturas condutoras. EPI completo, incluindo luvas dieléctricas Classe 0, é padrão.
Fumos com fluoreto de hidrogénio
A queima do eletrólito liberta HF, um dos gases mais tóxicos conhecidos. ARICA obrigatório, sempre. Não há distância segura para operar sem proteção respiratória — o vento pode inverter e apanhar a equipa em minutos.
5. Do lado preventivo: projeto e monitorização
Projetar para o pior cenário: compartimentações específicas para salas BESS (REI 120 mínimo, ventilação dedicada, drenagem para água contaminada), afastamento entre packs, sistemas de deteção precoce de off-gassing (uma tecnologia que ainda não é mainstream em Portugal mas já é norma em projetos internacionais) e planos de resposta pré-acordados com os bombeiros locais.
Para veículos elétricos em parques de estacionamento cobertos, a discussão está aberta na Europa sobre limites por piso, sistemas de sprinkler específicos e sinalização obrigatória. Em Portugal, o RJSCIE ainda não trata explicitamente estes casos — os projetistas devem antecipar cenários e propor medidas mitigatórias mesmo na ausência de norma expressa.
Conclusão
Incêndios em baterias de lítio não são uma variação dos incêndios convencionais — são uma categoria autónoma que exige táticas, equipamento e formação específicos. As equipas que ainda respondem a estes cenários com procedimentos padrão do fogo urbano estão a operar com risco elevado e eficácia baixa. Formar, equipar e projetar para o específico deixou de ser opção.
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